Vertigem das Listas

October 21, 2014

E começa o friozinho na barriga!

 

 

Sinopse

A criação deVERTIGEM DAS LISTAS começou com a observação de que listas eramelementos constantes em textos de autores da minha predileção, talcomo Borges, Calvino, Joyce e Paul Auster. A descoberta gerou uma fascinação crescente pelas listas, que me levou ao deslumbramento diante do livro homônimo de Umberto Eco, que dá nome ao trabalho.Longe de tentar transpô-lo para a cena, sua grandiosa pesquisa,realizada no Museu do Louvre, nos aguçou a percepção para a presença das listas em nosso cotidiano e em nossas vidas, nos incitou a tentar enumerar as que conhecíamos e a indagar que papel elas poderiam exercer em nossa poética cênica. Dessa forma, o ato de listar se tornou praticamente uma obsessão. 

Durante o processo de criação, percebemos que, se uma estética das listas é evidente na história da arte e da literatura, ela passa também por nosso dia-a-dia, por nossas reavaliações e projetos de fim de ano, pelas listas que nos informam sobre os melhores filmes, as pessoas mais bem vestidas, os lugares que precisamos ir, em outras palavras, por nossa tentativa de organizar a vida. Mas, além dessas listas práticas, as listas poéticas, quenos colocam em contato com o infinito, mostram nossa incapacidade de nomear o todo e o prazer inquieto de continuar a tentar enumerar o incontável. 

E, assim, continuamos a nos extasiar diante do espaço infinito e tentamos descreve-lo em cada uma de suas constelações. Ficamos sem palavras para falar de amor, mas a literatura está aí para provar nossas incontáveis tentativas e variações sobre o tema. E os livros, as bibliotecas, as palavras, os números que se tornam enumerações, todos se transformam em caminhos que parecem aproximar o infinito.

O desenho cênico de VERTIGEM DAS LISTAS, bem como a forma de comunicação entre e através das atuantes, busca criar, através de listas queirrompem como indicativas de percursos, um sistema de permutações entre corpo e espaço, ordem e desordem. Como nas listas, não ha uma história, mas fluxos verbais e sequências de movimento que partem e são atraídas para um ponto referencial: um pequeno quarto cheio de caixas e livros, onde um boneco de sexo não definido sonha e organiza. O texto refere-se a este quarto com um espaço onde existe umdesejo ávido de ver tudo de uma só vez, de saborear o“caos de percursos e simultaneidades. E narrar. Escrever sobre tudo.” Esse quarto, que se desdobra pelo palco, é proposto como espaço poético-existencial de criação. 

Penso que um aspecto tocante das listas é o de desejar falar o mundo e lhe dar uma certa ordem. Seu dizer facetado e, muitas vezes lógico apenas para quem as escreve, pertence mais à ordem do signo do que das definições e parece indicar um desvio às normas narrativas mais tradicionais. O texto de VERTIGEM DAS LISTAS, ao sintonizar-se a esta sintaxe, apresenta ideias, reflexões e imagens como fragmentos e justaposições e busca o desviopara propor a aceitaçãoda descontinuidade e do etc. como valor.As três personas cênicas, interpretadas por Marina Salomon, Patrícia Niedermeier e Marina Magalhães, apresentam-se como partes de um tríptico - elas mesmas portanto definidas como incompletas –como fragmentos de uma lógica cênica de percursos conectados, onde exploram possíveis alternativas e se percebem nos ecos, entremeios, espelhamentos e recorrências entre si. Suas vozes não dialogam, mas a fronteira de seus monólogos se rompe através de rebatimentos textuais e recursos coreográficos, que operam simultaneidades e complementações, instalando um conjunto de tensões onde, como em um tríptico, as três partes passam a ser lidas como uma.

Em um sistema rítmico vertiginoso, composto de fluxos, refluxos e suspensões, a cena sugere uma pulsação infinitaque, através do processo de listar, se submete temporariamente ao que Umberto Eco chama de “infinito atual, feito de coisas talvez numeráveis, mas que não conseguimos enumerar, porque tememos que sua enumeração não termine nunca”.Se este desenho tem como referência o labirinto, este não é o labirinto clássico, com uma única entrada e uma única saída. Aqui, no espaço desse quarto/palco, a “saída”para alguns talvez seja ocupar o espaço da memória, enquanto que, para outros,talvez estejaem permanecer nos processos de enumeração, permutaçãoe multiplicação propostos, que reapresentamfaces, textos e espaços, tornados diversos a cada nova conexão. 
A noite se completa com Manuscritos de Leonardo, trabalho criado por Regina Miranda em 2013, no qual a temática das listas se apresenta como elemento organizador das criações do artista/cientista Leonado da Vinci. O crítico Lionel Fischer enfatizou "a alta expressividade e dinâmica que Regina Miranda impõe à cena". Adriana Pavlova apontou que, nesta obra de câmara, a "proximidade entre intérpretes e público é um dos trunfos" e Ida Vicenzia observou que o trabalho é "uma experiência imperdivel, que aconselhamos a todos os humanos, sejam eles apaixonados ou não por dança e teatro". Todos ressaltaram a atuação impecável de Marina salomon e Patrícia Niedermeier.

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