Discutindo a remontagem de transobjeto

August 15, 2014

Texto excelente do artista e mineiro Tuca Pinheiro. Também disponível em http://seteporsete.net/post-view-new.php?id=137 

 

DISCUTINDO A REMONTAGEM DE TRANSOBJETO 
TUCA PINHEIRO a partir de Remontagem de Transobjeto de Wagner Schwartz 

 

 

TÍTULO A ESCOLHER:

 

“Do TRANSOBJETO de Wagner Schwartz ao TRANSABJETO de Tuca Pinheiro.”

 ou

“Você é bailarino brasileiro e não fala francês. Je m’en fous.” (Hyenna)

ou

“Um murro bem dado contém em si sua própria anestesia, seja corpórea, seja espiritual.” (Primo Levi – Os afogados e os Sobreviventes)

ou

“Fui convidado pro pagode, acabou a comida, acabou a bebida, acabou a canja. Sobrou pra mim o bagaço da laranja.” (Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho)

 

Dias depois de participar de um debate a convite de meu colega Wagner Schwartz, promovido pelo SESC Santo Amaro, no dia 26 de julho de 2014, Wagner me pediu para escrever um texto sobre a minha fala. Imediatamente pensei: “lá vem o Schwartz me jogar de novo na fogueira. E, como eu adoro me jogar na fogueira...”. Esse pensamento já havia me atravessado quando recebi e aceitei o convite. DISCUTINDO A REMONTAGEM faz parte de um projeto de ocupação patrocinado pelo SESC Santo Amaro/SP que contempla a remontagem do trabalho “TRANSOBJETO” de Wagner Schwartz, que teve sua estreia em 2004. É de suma importância mencionar aqui o nome do Marcos Villas, responsável pelo intercâmbio entre a instituição-SESC e esse projeto maravilhoso que se concluirá em agosto, com a apresentação de TRANSOBJETO 2014.

Na mesa, estávamos Wagner, eu e a professora Helena Katz e, como público, alguns amigos. Uma pena tão poucas pessoas presentes e participando de um projeto tão importante que reforça o meu entendimento de que a produção de dança nesse país, chamado Brasil, não está mais resumida a produzir espetáculos.

Na verdade toda a minha colocação apresentada no debate (adoro esse termo: colocação!!!, muito sugestivo e presente nas minhas discussões e processos investigativos) antecede o evento em si. Wagner e eu nos conhecemos há um bom tempo e sempre nos encontramos irregularmente, seja em Belo Horizonte, São Paulo, Paris, Berlim, Uberlândia, Curitiba. Fomos apresentados, oficialmente, em Belo Horizonte, depois de um espetáculo de Dudude Herrmann. Nos encontramos, na mesma noite, por coincidência, numa boate em Belo Horizonte. Eu já estava em plena colocação alcoólica depois de umas 4 doses de gin tônica. Me lembro quando assisti o “TRANSOBJETO”, em Belo Horizonte. Ele, o Wagner, se dirigiu a mim durante o espetáculo e me pediu para acender o cigarro que usava na cena. Depois virou de costas com a bunda à mostra, naquele vestidinho vermelho. Fato que ele nem se lembra... Ça n'a pas d'importance ! Eu me lembro que, ao final do espetáculo, comentei com uma amiga: “quero ser Wagner Schwartz quando crescer”. Daí em diante foram vários encontros, vários espetáculos que assistimos juntos, várias cervejas compartilhadas, muitas gargalhadas. Eu, quase sempre, participando das edições do Olhares sobre o Corpo (projeto fantástico idealizado por Fernanda Bevilaqua e Wagner, que acontece em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, pertinho da minha cidade natal, Patos de Minas, que fica no Alto Paranaíba). Wagner e eu sempre trocamos figurinhas, comentários (alguns bem engraçados, outros nem tanto assim...). Sem falar nas trocas de WhatsApp (tanta baixaria), rola papo sério (também)! Um desses encontros se deu dias antes de eu embarcar para São Paulo, para o SESC Santo Amaro, através do Skype (essa tecnologia que me expõe de forma cruel. Eu não conseguia me conectar com o Abacaxi! – apelido do dito-cujo). Nesse dia, perguntei ao Wagner: “Wagner, o que você quer de mim? O que você quer que eu diga? Estou aqui em BH “estudando a Semana de 22, Antropofagias, Tropicalismos, Oiticicas, Lygias, Caetanos e Gils e estou achando um porre! Um saco. Quando vamos deixar tudo isso descansar em paz? Parece que toda a cultura e produção artística brasileira, “considerada inteligente”, ficou empacada nesses movimentos e períodos ou então se replica a partir desses períodos, dos manifestos e produções que daí se originaram! Tá parecendo uma mula velha, daquelas que empacam no caminho e nada faz com que elas prossigam. Não teremos a chance (ou a coragem? ou a loucura?) de buscarmos outras referências ou construirmos nossas próprias, baseadas inclusive nos nossos não-saberes, na nossa própria ignorância, na nossa escuridão? Será que nós mesmos não estamos criando e replicando um olhar legitimador dos fazeres artísticos, baseado nos padrões neocolonialistas europeus? Só que, neocolonizadores de brasileiros para brasileiros? De repente, sei lá, criarmos um outro movimento (movimentos se criam)? Afinal de contas: “É PROIBIDO PROIBIR?”. Luiz Carlos Saldanha dizia em pleno Tropicalismo: “É quase suicida procurar romper o que já está podre”. Ainda disse a ele, ao Wagner: “EU QUERO MORRER EM PAZ!”. Até mesmo porque viver em paz, hoje em dia, está praticamente impossível. Wagner gentilmente me respondeu: “Tuca, quero que você fale sobre os seus transobjetos. Aquilo que te move, aquilo que te faz prosseguir. O que te faz dançar de barba hoje e sem barba amanhã. O que é, e onde estão seus objetos de investigação, de inquietação?” Então, disse a ele, parodiando um depoimento de um dos tropicalistas: “eu tenho coisas para contar e não colocações para definir. Vou contar casos e piadas.” Ele sorriu. Disse a ele que meu TRANSOBJETO, mais do que nunca, estava situado entre o riso e o resto (concedo aqui os créditos dessa citação à minha amiga Rosa Hercoles). Falarei disso mais tarde.

No dia seguinte, antes de partir para São Paulo, lá estava eu diante da televisão, em meu apartamento, assistindo alguns trabalhos que desenvolvi como intérprete, criador, assistente, colaborador. Uma sensação de nostalgia e melancolia me invadiu. De novo fui atropelado pela pergunta que me persegue: porque faço dança? Obrigado Wagner por esse momento retrospectiva: “essa é a sua vida, Tuca Pinheiro”.

Ironicamente, no dia seguinte, fui reconhecido em plena estação rodoviária de Belo Horizonte, antes de entrar no ônibus. Uma garota se aproximou com um sorriso e me perguntou: “você é o Tuca Pinheiro? Sou sua fã”. Eu achei o máximo. Ela me perguntou: ”seu trabalho é político?”, e foi mais ou menos assim, no dia seguinte, que comecei a minha fala.

Estava nervoso, inseguro, pra dizer a verdade! O que meu testemunho (testemunho tem uma conotação de depoimento em igrejas, aleluia, fui salvo pela dança, “peladança” – um coletivo de gente pelada-cruzes!!!) poderia contribuir para um projeto tão bem elaborado e que ainda contaria com a presença de pessoas que sempre foram referências para mim? Talvez estivesse justamente aí a minha contribuição – minha singularidade, meus casos, meus encontros nesses trânsitos, minhas piadas nesses atravessamentos sofridos durante minha trajetória, nesses meus encontros com lavadeiras do Jequitinhonha, com travestis, com empregadas domésticas, pedreiros, transformistas, poloneses, judeus, nessa minha maneira de entender e fazer uma dança conectada ao dia a dia de Divas, Edsons, Humbertos, Marias, Joãos, Josés, Michelles, Suellens, Odilons, Aganbens, Espósitos, Leones, Garays, Silvas, Wagneres, Anas, Khelillis, Dududes, Zikzyras, Helenas, Rosas, Palácios (barracos), Terreiros, matadouros (de bichos e de gentes), Alejandros, Veras, Lias, Andrés, Luizes, Doras, Fernandas, Cláudias, Adrianas, Carlas, Denises, Auschwitzes, Rumos (e sem rumos também!!!). Enfim, uma salada!!! Dá para misturar tudo. Tudo junto misturado. E, cronologicamente, fora de temporalidades precisas. Fui deixando as memórias me atravessarem e me perdi. E me perdi mesmo! Sou um caso perdido!

Essa perdição teve início em 2011, quando André Masseno me convidou para participar de um projeto intitulado “O Confete da Índia”. Santo André!!! Abençoou e me corrompeu totalmente. Foi justamente nesse período que comecei a devorar tudo sobre Antropofagia, Tropicalismo, Lygia, Hélio, Bodansky, Glauber, Mutantes, Zé Celso... Lógico que o resultado foi uma indigestão mental. Confesso que as sequelas foram benéficas.

Em maio/junho 2012, fui para Zurique me encontrar com André para darmos continuidade à nossa parceria. Eita cidadezinha asséptica. Eita país limpinho. Depois de dias conversando, fizemos nosso pacto: “MORTE A TODOS OS ANTROPOFAGISTASS, TROPICALISTAS. VIVA O TRANSE! VIVA A CACHAÇA! VIVA A BAGAÇA! A partir daí, não teve mais volta (né, André?). E deu no que deu: nós sempre repetíamos: “não temos nada a perder, pois nunca ganhamos nada”. Hoje percebo o quanto ganhamos. Começamos a inventar ou reinventar a nossa DANÇA LIVRE, desaforada, embriagada, mijada, cagada, porca. Foi justamente nessa época, em Zurique, que dei início a um projeto de construção metodológica intitulado: “A Urgência da Ineficiência no Processo Criativo”. Em seguida comecei todo o processo de estudos para a construção do meu solo “HYENNA – não deforma, não tem cheiro, não solta as tiras”. Que teve sua estreia em novembro de 2013, coproduzido pelo FID 2013/Território Minas. Como foi fundamental para André e eu levantarmos esse grito e partirmos para nosso desatino desenfreado. Me lembro de um passeio que fizemos numa cidade chamada Luzerna, às margens de um lago de águas cristalinas, com montanhas lindas, vaquinhas pastando tranquilamente, os famosos internatos suíços para as filhas dos milionários. Eu disse a André: “ai que vontade de espalhar uns verdinhos brasileiros nessa paisagem tão correta, bagunçar esse visual com caatingas, matas atlânticas, cabritos, bromélias, seringueiras, travestis da Avenida Atlântica, garotos de programa, mosquitos da dengue, arrastões, cangaceiros e muita bosta”. Então me dei conta de que sempre fiz uma dança correta, limpa. Obrigado André!!! Sempre obrigado.

Outro ponto da minha fala foi justamente a respeito de uma dúvida que me persegue: “para o entendimento de uma obra coreográfica tão impactante e de efeitos constatados e consagrados pela crítica, aqui no caso em discussão a obra de Wagner – TRANSOBJETO – é necessário (ou seria necessário?) um estudo prévio dos materiais escolhidos?, um entendimento acadêmico das citações?, um certificado de conclusão de um seminário sobre o que estava nas entrelinhas enquanto objeto de estudo para concepção da obra? A obra não fala por si mesma? Temos que acompanhar a evolução da obra de um criador para avaliar sua evolução? No meu caso, quando assisti Transobjeto, confesso: eu era um zero à esquerda (e à direita também!!!) em Tropicalismos, Antropofagismos, Oswaldismos, Caetanismos... Ainda assim, fui atravessado violentamente. E me reconhecia naquilo tudo! Não sabia dos procedimentos para a construção da obra. Mas aquilo me provocava. Não sabia explicar o que era. E coloquei essa questão no debate. Afinal, devemos levar em conta que, quando circulamos com nossos projetos, o público é diversificado. Ou assim teria que ser... Corremos o risco de ficarmos fazendo trabalhos para os instruídos, os contemplados pela informação prévia, os abduzidos pelas citações ou então vamos fazer coreografias de rodapé, aquelas que temos de explicar na sinopse o que estamos fazendo. A obra tem de falar por si. Não precisa e não deve ser digerida de imediato. Ela em si é a sua potência. O sujeito da ação é a ação em si. A figura do intérprete não pode grifar a si mesma e dizer para a plateia: “olha como sou inteligente”. Durante muito tempo, quando assistia espetáculos de dança, eu aplaudia as peças porque eu ficava impactado com coisas e bailarinos que faziam coisas que eu não conseguia fazer. Hoje prefiro chorar, me emocionar, me permitir ficar dias tentando entender o que vi, com coisas que me reconheço e me identifico. Enfim, aquelas que me tiram de zonas de conforto. Me atravessam.

São esse trabalhos, são essas pessoas que me fazem pensar a dança não só como produção de conhecimento, mas também como possibilidades de encontros, de trânsito, de diálogos para exercer a minha cidadania (sobretudo se levarmos em conta que grande parte das produções de espetáculos de dança hoje, no Brasil, são beneficiadas através de recursos públicos).

Quando Wagner esteve em Belo Horizonte, em 2013, apresentando Piranha, a plateia, em grande parte, era constituída por estudantes da rede pública, essas parcerias de projetos com estudantes (você se lembra disso, Wagner?). Foi um alvoroço! O burburinho dos alunos não tinha fim. Aqueles risinhos nervosos, cheios de comentários. Afinal de contas, nenhum deles sabia quem era Wagner Schwartz. Nenhum deles sabia que Wagner havia causado alvoroço em 2004, quando estreou Transobjeto. E o Transobjeto também pertence a essas pessoas! Ou não?

Terminei minha fala contando o caso de um show do transformista Isac Power. (Na época, eu fazia pesquisas para o Hyenna.) Não sei de onde ele tirou a ideia ter um nome judeu como nome artístico, mas faz sentido. Não sei, mesmo, se eu adorei o show porque já estava alcoolizado (de novo na colocação). Fui conversar com a bichinha depois e perguntei a ela: “onde você faz dança? Eu adorei te ver dançando!” Ele debochadamente me respondeu: “o quê? Eu não faço dança, mona. Eu danço!”. Me retirei de fininho, óbvio.

Por isso, digo, hoje: meu TRANSOBJETO é meu TRANSABJETO. Ele vai do riso ao resto. O meu TRANSABJETO transita entre o Jequitinhonha e Auschwitz. Ele vai das ”Coreografias Não Autorizadas”, quando eu andava de ônibus em Belo Horizonte gravando conversas alheias de empregadas domésticas que roubavam comida das despensas das patroas ricas para levar para casa, até os debates, as oficinas, os espetáculos. Meu TRANSABJETO quer fazer a ponte entre a Carta de Pero Vaz de Caminha, os campos de extermínio de Auschwitz e Birkenau, as piadinhas infames sobre bichas, o Rei Leão da Disney, o samba de Jovelina Pérola Negra, O Quarteto para o fim dos Tempos de Messiaen, Raul Seixas, com meu vômito, meu cocar de Parentins, meu colete que usava para dançar o pas de deux do Pássaro Azul, do Balé da Bela Adormecida (que nem me serve mais), minha barriga, com a minha hiena, para discutir exatamente esse processo de higienização e hienização da dança, para dar continuidade ao grito iniciado em 2012 com André Masseno, quando proponho a ele, hoje, criarmos um coletivo que vai se chamar: “pra que chutar o pau da barraca, se podemos chutar a barraca inteira?”.

Transcrevo aqui minha troca de mensagens com Wagner, no dia seguinte após o debate, quando uma onda de insatisfação tomava conta de mim. Uma sensação de ter dito bobagens me deixou agoniado. Então eu escrevi:

Tuca para Wagner:

– Já estou em BH. Obrigado e desculpa qualquer coisa!

 

Wagner para Tuca:

– Obrigado eu, querido! Você trouxe um ar de graça a esse Trans. Seria lindo tê-lo aqui em agosto. Eu estou muito feliz que você entrou pro meu currículo!

 

Tuca para Wagner:

– Adorei um ar de graça. Vou mudar meu nome para Tuca das Graças. E fico feliz por você perceber assim. Eu realmente vejo essa graça no TRANS. Não é a pataquada! Mas é aquilo que Castilho fala sobre o deboche, citando Transobjeto: “deboche é a resposta”. Vamos dar o ar da graça, amigo! Vamos dar o cu de graça!

 

Paradoxalmente a tudo que escrevi, termino esse texto com uma citação de Caetano Veloso:

 

– Não posso negar o que já li, nem posso esquecer onde vivo. Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas.

 

Tuca Pinheiro, Belo Horizonte, 2 de julho de 2014. 

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